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A Justificação no Antigo Testamento: pela fé somente Rm 4.1-25

A unidade das Escrituras testemunha a favor da compreensão da graciosa salvação mediante a fé, desde o Gênesis até a consumação no Apocalipse.  No entanto, a compreensão equivocada da salvação mediante a fé não é algo novo. O judaísmo havia desenvolvido uma doutrina meritória, pregando uma justificação mediante as obras da lei. E, para contrapor este pensamento, Paulo lança mão de ilustrações do AT que corroboram a justificação pela fé somente.

Após discorrer sobre a universalidade do pecado (3.23) e apresentar a solução para o dilema humano, a graciosa Justificação pela fé em Jesus Cristo (3.24), Paulo ilustra a justificação no Antigo Testamento (4.1-25). “A discussão de Romanos 4 não versa sobre a base da justificação, e sim, sobre o meio de assegurá-la” (Packer). Para isto o apóstolo usa a figura de Abraão, o pai da fé, como exemplo de alguém que fora justificado pela fé. Sendo assim, Paulo afirma que a Justificação no Antigo Testamento era pela fé pois:

  1. Não era por obras (4.1-8)

Paulo começa discorrendo que Abraão fora justificado pela fé na promessa do herdeiro e não pelas suas próprias obras. Pois, se a justiça de Abraão foi mediante seu trabalho, então há espaço para vanglória, e a graça é anulada (4.4-5). A base para este argumento é a própria Escritura (4.3,6-8). A ordem de Gn 15 é: Deus faz a promessa de um filho legítimo, Abraão responde com a fé e o resultado é que ele foi declarado justo por Deus. “A fé nos traz justiça, não porque seja uma virtude meritória, mas porque ela obtém para nós a graça de Deus” (Calvino). Para reforçar seu argumento, Paulo cita Salmo 32.1 e demonstra que Davi também confiava na graça de Deus para sua justificação. “A não imputação de pecado, com que o salmista se regozija, importa em positiva imputação da justiça, ou pronunciamento de absolvição, pois é impossível haver veredicto de ‘sem prova’ no tribunal de Deus” (Bruce).

  1. Precedeu a circuncisão (4.9-12)

Para desconstruir toda teologia meritória, Paulo fala ainda que Abraão foi justificado antes da instituição do selo da circuncisão (Gn 17.9-14), para assim ser conhecido como pai também dos incircuncisos, daqueles que estavam fora da etnia israelense, mas viriam a crer no Messias. Como Abraão recebeu a justificação pela fé antes desse rito ser instituído podemos afirmar que ele é “pai” de todos os crentes, judeus e gentios (4.11-12). O ponto é, a circuncisão foi como consequência da justificação, um selo, e não a causa em si. Paulo já havia desconstruído este conceito quando afirmou anteriormente: “Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28-29).

  • Independente da lei (4.13-17)

O terceiro argumento de Paulo, para consolidar que também no AT a justificação era mediante a fé, é pôr a lei no seu devido lugar. Mais uma vez o objetivo de Paulo é desconstruir o falso conceito que se criou, de que pelo seu desenvolvimento religioso o homem poderia tornar-se justo, e ser salvo mediante o cumprimento da Lei. Abraão foi salvo, não pela circuncisão ou pelo regime da lei, mas porque Deus perdoou seus pecados e o declarou justo. E para Paulo todo aquele que exercita o tipo de fé que Abraão teve pode ser chamado de “descendência espiritual de Abraão”. Sabiamente Bruce afirma: “Concisa afirmação do princípio de que aquilo que Deus dá por sua livre graça, pode ser apropriado pelos homens somente mediante a fé. Ao contrário, o que é obtido pelas obras (não pela fé) é dado por questões de mérito (não de graça)”. A justificação é um ato gracioso de Deus em favor dos seus filhos.

  1. É comum de todo cristão (4.18-25)

O quarto e último argumento de Paulo é que, a fé que Abraão exerceu no poder de Deus sobre a Morte é da mesma essência da nossa fé no Cristo ressurreto. O mesmo é testificado em Hebreus ao afirmar que Abraão “considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou” (Hb 11.19). Nestes versos Paulo defende que todos os cristãos são justificados pelo poder da Ressurreição de Jesus, e não pelas suas próprias forças ou observâncias de ritos. Nossos esforços e ritos religiosos não poderiam nos salvar e nem a Lei nos justificar. Como assevera Cranfield: “O que os nossos pecados requeriam era, em primeiro lugar, a morte expiatória de Cristo, e no entanto, se sua morte não fora acompanhada pela sua ressurreição, ela não teria sido a ação poderosa de Deus em favor de nossa justificação”. Apenas Cristo, sofrendo o que merecíamos, a morte, e ressuscitando dentre os mortos, pode garantir nossa salvação.

Enfim, o capítulo quatro destaca importantes lições para nossa reflexão e edificação. Primeiro, Devemos meditar em toda a Escritura como sendo a revelação da vontade de Deus para o ser humano. O Antigo e Novo Testamentos são uma unidade, e o Evangelho do Senhor Jesus está em toda a Bíblia. Segundo, Cristo é o fundamento da nossa fé. Nossa confiança deve estar arraigada em Deus e em seu poder, plenamente manifestado na Ressurreição de Cristo, que se entregou por nossos pecados, e nos justificou pela sua graça. Não há mais condenação sobre nós. Não podemos nos esquecer disto, de quão grande amor o Senhor tem por nós. Por fim, a doutrina da justificação deve nos conduzir a uma vida de terna humildade e devoção. Humildade, pois não merecíamos o favor de Deus revelado em seu Filho, e não há bondade em nós que nos garanta a benção de ser inserido na família de Deus. Devoção, pois ele é o autor e consumador da nossa fé. O privilégio da redenção traz consigo a responsabilidade de viver uma nova vida e anunciar tão grande salvação.  

Isaac Nicholas Guerra